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20 de April de 2014


Edwin Luisi: ‘Não aguento ir no Jô’ Ator da 1ª versão de 'O Astro' critica o pop e a TV

05/07/2011 | 10h39min

Vindo de família italiana, ele foi criado no bairro da Mooca. Apesar da origem simples, o pai contador pôde proporcionar bons estudos a Edwin Luisi, que frequentou um dos colégios particulares mais conhecidos de São Paulo, o Bandeirantes.

Ele sonhava em ser médico, mas aos 20 anos, e ainda confuso com a escolha, conseguiu uma bolsa de estudos e foi morar em Paris. Por lá, confirmou que a vocação era mesmo para a arte. Na volta, prestou vestibular para a Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo e ali começou sua promissora carreira.

Hoje, aos 64 anos, Edwin comemora 40 anos de estrada. Está no ar como Genaro, na novela Rebelde, da Record, e em cartaz com a peça Tango, Bolero e Cha Cha Cha, no Teatro Frei Caneca, até o próximo dia 17.

Entre seus personagens clássicos está Felipe, o assassino de Salomão Hayalla na primeira versão da novela O Astro (1977), que virou macrossérie e volta para as telas da Globo no próximo dia 12. Da infância, Edwin tem lembranças curiosas, como os carcamanos falando alto, todos reunidos sempre na cozinha. Sobrinho caçula dos 16 irmãos do seu pai, ele diz que teve de vencer na vida o mimo que recebeu na infância.

Como foi a sua entrada na Tupi, (novela ‘Camomila e Bem-Me-Quer’, 1972)?


Não lembro como foi. Eu meio que abominei. Eles foram muito desagradáveis comigo e com muitos atores. Fomos maltratados, não me dei bem lá. Não é uma boa lembrança para mim.

E a sua primeira peça?
Considero que foi ‘Ensaio Selvagem’, em 1974. E logo de cara já ganhei prêmio. Foi um marco na minha vida.
Aliás, ao longo de sua carreira, você acumulou muitos prêmios…
Em duas peças, ganhei 12 prêmios (Tango, Bolero e Cha Cha Cha e Eu Sou Minha Própria Mulher). Tenho orgulho disso. Não leio mais nada por aí. Eu vejo muita maldade. Não aguento ter de dar entrevistas, ir no programa da Hebe, do Faustão. Quero trabalhar. Se, para isso, tenho de ir aos programas, ok. São 40 anos falando as mesmas coisas. Não aguento ter de ir no Jô Soares, ter de dar uma de inteligente, espirituoso, se vestir legal, agradar. Tudo isso é muito chato.

Você é vaidoso?
Fui atleta de ginástica olímpica dos 11 aos 20 anos. Tenho uma consciência corporal grande. Cuido da alimentação desde cedo. Nessa peça (Tango, Bolero e Cha Cha Cha) faço movimentos de atletismo mesmo, dou salto no ar. Mas em relação à carreira acho que sou só um pouco vaidoso. Meus prêmios, por exemplo, estão todos guardados no armário. Não exponho. Se eu fosse vaidosão, meus prêmios estariam expostos, teria milhares de fotos e enormes cartazes de peças espalhados em casa.

Você já fez plásticas?
Já. Alguns amigos perguntam: ‘Você fez plástica?’, e eu digo: ‘Não, só tomo dois litros de água por dia’. Engraçado que todo mundo que fez plástica só toma muita água, né? (risos) Fiz sim. Qual o problema? Aos 50 anos, fiz uma daquelas barra pesada, aquela de parecer ladrão de meia, sabe? E há um ano e meio tirei a papada. Até queria fazer a correção da pálpebra, mas não faço mais. Tenho medo de que fique muito artificial.

Você passou por várias emissoras nestes 40 anos. Tem alguma coisa que te incomoda na TV?
Não gosto dessa cultura pop em que tudo vira um grande circo. A TV e as instituições em volta dela fazem isso. Vejo pouco televisão. Gosto de assistir a documentários, filmes. Assisto novela mais pra saber como está o meu trabalho.

Você acha que a Record pode ser maior do que a Globo?
Acho difícil a curto prazo. A Globo ainda tem mais bons profissionais nos seus ramos. A Record está formando um quadro. Agora, está gastando mais dinheiro, em novelas, minisséries bíblicas. Acho que pode se equiparar, sim.

O que você faz para se divertir?
Comprei um apartamento no Leblon, todo quebrado. Paguei barato, reformei ele inteirinho, do jeito que eu queria. Tudo nele é prático. Hoje, o meu grande prazer é ficar em casa. Mas sou bastante convidado para várias festas, eventos, estreias. Além disso, como fui atleta antes de ser ator, adoro correr na praia.

Você tem amigos no meio artístico?
Tenho mais amigos que não são do ramo. Mas tem a Angela Vieira, o Herson Capri, a Priscila Camargo. Adoro amizade com gente jovem. O Claudio Botelho e o Charles Miller são dessa turminha.

Por que você escolheu a peça ‘Tango, Bolero e Cha Cha Cha’ para revisitar?

Quando fiz a peça, há dez anos, ela fez um sucesso estrondoso no Rio e em São Paulo. Neste tempo, realizei muita coisa boa. Queria fazer uma peça que já tinha feito, mas sempre esbarrava na idade. A única que dava para fazer era essa, mas me lembrava das dores, da depilação, dos espartilhos, câimbras, da maquiagem, do esforço físico incomensurável. Fora que tinha acabado de fazer um travesti (na peça Eu sou Minha Própria Mulher). Mas, mesmo assim, resolvi encarar.

O que acha do homossexualismo?
O que eu acho do homossexualismo? Acho que é uma coisa que existe e está aí. Tem fome, miséria, guerra. Ficar se preocupando com um casal de gays? Claro que tem que discutir, já que ainda existem pessoas sendo mortas por homofobia. Mas por que lutar contra o casamento gay? Contra o amor de duas pessoas que se querem bem?

A política? Em quem você votou nas últimas eleições?
Eu não voto por partido. Jamais votaria nestes partidos mais progressistas, claro. Votei no Lula na primeira vez em que ele venceu. Mas não votei na segunda, por causa de tudo o que aconteceu, as denúncias de corrupção. E não votei na Dilma. Eu a acho despreparada. O Pitta (Celso) foi um desserviço aos negros. Espero que ela não seja um desserviço à luta da mulher. Votei na Marina e, depois, no Serra.

O Genaro (atual personagem de ‘Rebelde’) tem semelhanças com você?
A Margareth Buri (escritora da novela) é minha amiga. Ela quis escrever uma coisa bem parecida comigo. Gosto de roupas, de me cuidar, de estar com um cabelo bacana. Até as coisas que eu falo ela coloca no texto. Eu conheço muito bem o segredo do personagem.

Jura? Conte-nos, então.
Só conto se você não publicar. Você sabe guardar segredos como eu? O segredo do Genaro foi uma ideia minha.

Não posso. Se você me contar, terei de publicar tudo (o ator sorri e a entrevista segue). Então, quer dizer que você é um homem de segredos?
Não exatamente. Falo tudo o que eu penso. Algumas vezes, até magoo as pessoas por causa desse meu jeito. Mas se me pedem pra não contar, eu não conto. Na novela ‘O Astro’ eu fiz o Felipe, que matou o Salomão Hayalla. Antes de gravar a novela, encontrei a autora (Janete Clair) e ela me disse: ‘Quero que você seja o assassino. Só que você não pode contar pra ninguém, nem pros seus pais’. Guardei esse segredo até o final.

Você tem alguma religião?
Minha formação é católica e não vejo por que mudar de religião. Afinal, todas elas pregam praticamente a mesma coisa: a concórdia, a bondade, o altruísmo, a misericórdia. Sigo um pouco de tudo filosoficamente. Meu contato com Deus é mais importante do que não comer carne, fazer penitência, não fazer sexo antes do casamento. Deus é amor, concórdia, paz. E é isso que eu sigo.

Você pensa em parar de trabalhar?
Tem horas – e, hoje em dia, são muitas – em que penso em parar para fazer outras coisas: viajar, ler, me divertir, pintar (há 8 anos, ele pinta figuras geométricas em madeira). Estou pensando em parar, sim. Estou até juntando dinheiro pra isso. Mas penso em dar vazão a outras coisas. Tenho três roteiros prontos. Quero dirigir, atuar em coisas menores e que permaneçam menos tempo em cartaz. Já fiquei dois anos em cartaz. Não quero mais isso. Não posso ser substituído. Não posso nem me machucar.

Quantas línguas você fala?
Quando me mudei para a França, não sabia falar nem uma palavra de francês. Comecei a falar bem depois de uns cinco meses. Tive de me virar. Falo também italiano, espanhol e inglês – que é a que tenho mais dificuldade, acredita? A lógica simplista do inglês não entra na minha cabeça. Quando acabar a peça (Tango, Bolero e Cha Cha Cha), quero ficar no exterior uns três meses, para ver se morro falando inglês fluentemente.

Agência Estado