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Robert Lighthizer, o negociador linha-dura de Trump

2018-12-04 13:41:00.0
Foto: AP Photo/Evan Vucci

Um velho conhecido do Brasil será o principal negociador dos Estados Unidos ao longo da trégua na guerra comercial, firmada entre Xi Jinping e Donald Trump no último sábado em Buenos Aires. Era o que a China mais temia.

A tarefa de estabelecer, nos próximos 90 dias, os termos de uma possível paz tarifária caberá ao representante comercial Robert Lighthizer. Ele trabalhou para o Instituto do Açúcar e do Alcool brasileiro numa disputa com o governo americano nos anos 1980, depois ficou conhecido pela defesa intransigente da indústria americana do aço diante da pressão dos acordos de livre-comércio.

Lighthizer é tido como negociador duro, crítico da abertura de mercados e defensor de tarifas e outras barreiras para proteger indústrias nacionais. Tem ampla experiência como negociador e não chega a ser um adversário ideológico contumaz da globalização (como o assessor econômico Peter Navarro). Mas não fica tão longe disso.

O último feito de Lighthizer foi a renegociação do Nafta com México e Canadá. Ele obteve concessões relevantes dos canadenses em áreas como laticínios e proteção a patentes da indústria farmacêutica.

Os chineses temiam que a negociação da trégua comercial ficasse a cargo de Lighthizer. Esperavam alguém mais maleável e ideologicamente identificado com o livre-comércio, como o secretário do Tesouro, Steve Mnuchin. A visão protecionista de Lighthizer é, contudo, mais próxima à de Trump. Como o chefe, ele mais desconfia do que acredita na liberdade comercial.

Embora os mercados tenham festejado o período de 90 dias anunciado por Trump antes de impôr uma nova rodada de tarifas contra produtos chineses, é enorme a indefinição sobre o que a trégua significará na prática. Do anúncio vago depois do jantar de Xi e Trump no sábado, depreende-se que a China ampliará as compras de produtos agrícolas, industriais e energia. Mnuchin chegou a ventilar compromissos de até US$ 1,2 trilhão em importações, mas a própria China evitou especificar produtos ou mencionar qualquer cifra.

Em troca, os Estados Unidos suspenderão até 1º de março o aumento de 10% para 25% previsto nas taxas de importação de produtos chineses que somam US$ 200 bihões. Também evitará impor novas tarifas já anunciadas. Permanecem intocadas, contudo, as de 25%, impostas sobre importações de US$ 50 bilhões. A intenção é torná-las permanentes na negociação com os chineses.

Ao longo do período em que durar a trégua, Lighthizer tentará extrair concessões em áreas como transferência tecnológica, proteção à propriedade comercial, crimes digitais, serviços e agricultura. Não é, essencialmente, uma pauta diferente da que tem oposto os chineses não só a americanos ao longo de mais de uma década. Lighthizer, por seu próprio perfil, não se contentará com declarações e compromissos vazios, como os que a China tem feito – e descumprido – há anos.

Mas é difícil acreditar que, em apenas três meses, obtenha algum tipo de concessão capaz de mudar o modelo de desenvolvimento chinês ou de convencer os consumidores americanos a evitar comprar mais. Apesar de todo o esforço tarifário, o déficit comercial americano cresceu este ano em torno de 10% e beira os R$ 800 bilhões.

Tarifas são incapazes de eliminar a tensão de fundo, entre uma economia voltada para a produtividade, com excesso de poupança, e outra com necessidade de financiamento e excesso de demanda. O máximo a que a trégua pode almejar é algum respiro na escalada, ou alívio a indústrias específicas, como a automotiva.

Poucos dias depois do anúncio do fechamento de cinco fábricas da GM nos Estados Unidos (consequência, em parte, do aumento de custo resultante das tarifas sobre o aço), Trump destacou ontem num tuíte a redução das taxas de importação de carros americanos na China.

É uma conquista apenas aparente. As tarifas chinesas tinham subido de 15% para 40%, como retaliação à primeira salva disparada por Trump na guerra comercial. O provável é que agora fiquem em 25%, patamar que a China tem aplicado a outros países.

A realidade é bem mais desafiadora que o espaço de 280 caracteres. Carros americanos representam algo como 1% do mercado chinês, enquanto cinco montadoras chinesas elegeram o mercado americano como prioridade.

O tipo de dificuldade que Lighthizer enfrentará nas negociações é ilustrado pelo caso da própria GM. Enquanto fecha fábricas americanas, ela produz, em associação com uma montadora chinesa, um modelo de utilitário esportivo que exporta aos Estados Unidos – sujeito, desde junho, à tarifa de 25% por vir da China.

Por ser americana, a GM pede isenção. Como LIghthizer reagirá a tais casos, abundantes numa economia entrelaçada por cadeias de produção globais, a desafiar o protecionismo simplório?


G1
Helio Gurovitz

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