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24 de April de 2019

Brasil

Em 1º encontro de estudantes conservadores, feminismo é comparado a nazismo

18/03/2019 | 16h12min

Em seu discurso a favor da ideologia de "direita", no auge da empolgação, o universitário mineiro Nicolas Ferreira, 22 anos, compara o feminismo ao nazismo. Em uma crítica furiosa à eventual legalização do aborto — uma das bandeiras mais caras às feministas — ele afirma que a quantidade de crianças mortas na interrupção da gravidez equivaleria ao das que foram eliminadas na II Guerra Mundial. "Os números mostram isso!", trombetea Ferreira, insistindo em uma matemática que aproxima a questão do aborto no Brasil e o Holocausto.

Enquanto expõe suas ideias, ele fala com muito rancor dos professores — especialmente os da PUC de Belo Horizonte, onde estudou direito — dizendo que são "uns postes que ficam lá na frente falando, falando, fazem rodas de debates pra nada; um monte de retardados". Cita uma professora chamada Magda Guadalupe, "que deixa algumas partes do corpo cabeludas e não cumprimenta homens". Diz que Guadalupe o discriminou por ser cristão, e ele registrou um boletim de ocorrência contra ela: "Você não pode abaixar a cabeça para professor de esquerda", ensina.


O universitário mineiro Nicolas Ferreira (de pé, à esq, vestindo camiseta azul) acredita que o feminismo pode levar a uma mortandade de crianças comparável a do nazismo

Aristóteles & Olavo

Àquela altura do 1º Encontro da União Nacional dos Estudantes Conservadores (Unecon), que se realizou no último sábado, o filósofo grego Aristóteles (384 a.C.- 322 a.C.) já tinha sido comparado ao "influencer" Olavo de Carvalho; o seriado norte-americano Friends (1994-2004) fora apresentado como um programa em que "a agenda de esquerda engole o telespectador" ("Todo mundo pega todo mundo, tem homossexualismo (sic), nudez"); e a chacina de Suzano, que fez dez vítimas fatais na semana passada, era encarada como algo evitável, "se os coordenadores e os professores das escolas tivessem porte de arma e soubessem manuseá-las para poder defender os alunos".

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De acordo com o coordenador do encontro, deputado Douglas Garcia (PSL-SP), 25 anos, a Unecon é 0 braço estudantil do Instituto Conservador, que, por sua vez, passou a promover palestras depois da criação do movimento Direita São Paulo, em 2016.  "Hoje, as universidades são tomadas por uma ideologia de esquerda totalitária, ditatorial. A gente quer ocupar nosso espaço e ter um núcleo da Unicon dentro de cada faculdade, para que esses estudantes possam se fortalecer, defender suas bandeiras", diz.

Tumulto frustrado

O encontro dos estudantes se dá em um salão no quarto andar de um prédio baixo, de aspecto comercial, na Rua Vergueiro, zona sul de São Paulo. Na porta do prédio, quatro jovens vestindo calças camufladas e camisetas justas no corpo montam guarda, com uma expressão dura no rosto. Eles estão ali "para evitar qualquer tumulto que por pessoas contrárias ao movimento possam provocar", explica o bombeiro civil Caio Santana, 20 anos, criador do Cote (Centro Operacional de Treinamentos Especiais). "Damos treinamento de primeiros socorros, defesa pessoal, civismo e cidadania (para pessoas de direita)."

Para desapontamento de Santana e dos organizadores do encontro, ninguém apareceu para perturbar a ordem. Dos cerca de 150 jovens que Douglas Garcia esperava no evento ("tive de suspender as inscrições porque não ia caber tanta gente") compareceram 50. Decorado com bolas verdes e amarelas, e um banner grande que anuncia o encontro, o salão é guarnecido com chão frio composto por ladrilhos grandes de cerâmica pretas e brancas. À frente, há um computador e uma tela para projeções de tópicos dos palestrantes. À esquerda, uma mesa coberta com uma toalha azul, onde se senta, digamos, o núcleo duro do encontro.

UOL

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