A coluna destaca o poeta Ronaldo Cunha Lima que nos deixou sábado, 7, às 9h35m.
Poeta, nossa homenagem. Poetas não morrem, se encantam. Pra sempre em nossos corações.
É de novo você quem me procura
e é você quem me surge, como que,
entendendo de longe esta amargura,
sente a falta que sinto de você.
"Você chega silente e ninguém vê,
e às minhas ânsias logo se misturam,
fixando-se em mim, feito ternura,
na hora em que preciso de você.
Você me foge, às vezes, se esconde
no tempo em que a procuro não sei onde,
você desaparece, ninguém vê.
Mas, derepente, volta a ser presença
e vai entrando sem pedir licença
na hora em que preciso de você."
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"A fé é uma fonte que se alimenta do eterno. Nela, os homens se
dessedentam e se revigoram, para as travessias das solidões e dos
desertos da vida."
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Eis a famosa petição:
HABEAS PINHO
Exmo. Sr.
Dr. Artur Moura,
Meritíssimo Juiz de Direito da 2ª Vara desta Comarca,
"O instrumento do crime que se arrola
Neste processo de contravenção
Não é faca, revólver nem pistola.
É simplesmente, Doutor, um violão!
Um violão, Doutor, que, na verdade,
Não matou nem feriu um cidadão.
Feriu, sim, a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão.
O violão é sempre uma ternura,
Instrumento de amor e de saudade.
Ao crime ele nunca se mistura.
Inexiste, entre os dois, afinidade.
O violão é próprio dos cantores,
Dos menestréis de alma enternecida,
Que cantam as mágoas e que povoam a vida,
Sufocando, assim, suas próprias dores.
O violão é música e é canção,
É sentimento de vida e alegria,
É pureza e néctar que extasia,
É adorno espiritual do coração.
Seu viver,
como o nosso, é transitório,
Porém, seu destino o perpetua:
Ele nasceu para cantar, em plena rua,
E não para ser arquivo de Cartório.
Mande soltá-lo, pelo Amor da noite
Que se sente vazia em suas horas,
Para que volte a sentir o terno açoite
De suas cordas leves e sonoras.
Libere o violão, Dr. Juiz,
Em nome da Justiça e do Direito!
É crime, porventura, o infeliz,
Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?
Será crime, e afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores,
Perambular na rua um desgraçado,
Derramando na rua as suas dores?
É o apelo que aqui lhe dirigimos,
Na certeza, já, do seu acolhimento.
É somente liberdade, o que pedimos
E, nestes temos, vem pedir deferimento!"
Assinado:
Ronaldo Cunha Lima, advogado.
A coluna em sinal de luto deixa de mandar abraços online e a última.
O Colunista